Ídolos do coração
Por vinte e dois anos fui religioso e nesse tempo vi
inúmeras vezes católicos radicais e protestantes ortodoxos se digladiarem sobre
a questão da idolatria. Protestantes afirmavam que não eram idólatras, pois em
seus templos não havia imagem de nenhum santo. E católicos se justificavam
afirmando que embora houvesse imagens em suas igrejas, não prestavam culto aos
santos, apenas os veneravam. Assim, nessa discussão infindável, muitas farpas
eram trocadas e o espírito de tolerância, tão caro ao cristianismo, era
completamente ignorado.
Os religiosos, com raríssimas exceções, costumam
estar presos ao rito, ao dogma, à forma, à interpretação literal “segundo
a letra morta que mata” e assim sendo, quase sempre, mesmo cheios de
sinceridade, estão equivocados quanto a como, na prática, certo pecado se
manifesta. Esse apego à forma e não na essência das coisas é causa da confusão
quanto ao que vem a ser idolatria, fazendo com que o homem religioso ora pense
em idolatria como a presença de imagens de escultura em templos, ora faça “malabarismos
lingüísticos” para não ser visto como idólatra - Dicionário Aurélio: veneração: ato de venerar, culto,
adoração - . Mas afinal, o que é idolatria e quando alguém está sendo idólatra?
William Ellery Channing estabelece as bases do que
vem a ser idolatria ao afirmar:
“A matéria foi feita para a consciência, o
corpo para a alma. A consciência é o objetivo desse organismo vivo feito de
carne e ossos, nervos e músculos; ela é igualmente o objetivo do vasto sistema
de mar e terra, de ar e de céu. Essa criação infinita formada pelo sol e pela
lua, pelas estrelas, nuvens e estações, não foi instituída com o simples
propósito de nutrir e vestir o corpo; ela foi feita primeira e essencialmente
para nutrir e fazer desabrochar a alma, para ser a escola da inteligência, a
nutriz do pensamento e da imaginação, o campo de expressão de poderes ativos,
uma revelação do Criador”.
Eis os fundamentos da idolatria: “Por ignorância
vermos a matéria como divina em si mesma, em vez de percebermos a divindade
imanente na criação; darmos à matéria o primeiro lugar que pertence ao divino;
tornarmo-nos servos da matéria, em vez de dela nos servirmos para promovermos o
nosso próprio crescimento espiritual”. Sob essa ótica das essencialidades,
percebemos que podemos cometer o pecado da idolatria com ou sem ídolo, e, por
outro lado, termos em nossas casas e templos ídolos, mas ainda assim não
cometermos idolatria, pois esta se concretiza sempre que a matéria passa a ser
nossa prioridade, nossa divindade e assim converte-se em uma prisão para o
nosso espírito.
Por esse prisma, idolatra, com ou sem ídolo, aquele
que sobrepõe o ego-humano ao eu-divino; idolatra aquele que, por seguir alguém
abandona o Caminho; idolatra aquele que ama ao dinheiro e os bens materiais ao
ponto de, por isso, viver empobrecido espiritualmente; idolatra aquele que é
súdito dos governos deste mundo e, para tanto, abandonou o senhorio do Cristo
Cósmico; idolatra aquele que confunde D’us com a igreja e assim serve à igreja,
a instituição e os interesses dos impérios religiosos, em vez de D’us; idólatra
até mesmo aquele que cultua o conceito de D’us que foi construído pelo homem, o
deus dos credos, o deus da teologia, um deus criado à nossa imagem e
semelhança, em vez de servir o Eterno, Incriado, Infinito, Absoluto,
Inominável, que não pode ser servido por mãos humanas, a menos que o façamos na
pessoa do nosso semelhante.
Esses ídolos escapam aos nossos olhos, pois não estão
dependurado nas paredes das casas e templos, nos pingentes dos colares, nem no
pára-brisas traseiros dos carros. Esses são ídolos do coração que só quem olha
para o interior do seu próprio templo pode enxergá-los, bani-los e em seu lugar
erigir um altar ao único D’us – O D’US
DESCONHECIDO.
