quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Ídolos do coração



                Por vinte e dois anos fui religioso e nesse tempo vi inúmeras vezes católicos radicais e protestantes ortodoxos se digladiarem sobre a questão da idolatria. Protestantes afirmavam que não eram idólatras, pois em seus templos não havia imagem de nenhum santo. E católicos se justificavam afirmando que embora houvesse imagens em suas igrejas, não prestavam culto aos santos, apenas os veneravam. Assim, nessa discussão infindável, muitas farpas eram trocadas e o espírito de tolerância, tão caro ao cristianismo, era completamente ignorado.
                Os religiosos, com raríssimas exceções, costumam estar presos ao rito, ao dogma, à forma, à interpretação literal “segundo a letra morta que mata” e assim sendo, quase sempre, mesmo cheios de sinceridade, estão equivocados quanto a como, na prática, certo pecado se manifesta. Esse apego à forma e não na essência das coisas é causa da confusão quanto ao que vem a ser idolatria, fazendo com que o homem religioso ora pense em idolatria como a presença de imagens de escultura em templos, ora faça “malabarismos lingüísticos” para não ser visto como idólatra - Dicionário Aurélio: veneração: ato de venerar, culto, adoração - . Mas afinal, o que é idolatria e quando alguém está sendo idólatra?
                William Ellery Channing estabelece as bases do que vem a ser idolatria ao afirmar:

A matéria foi feita para a consciência, o corpo para a alma. A consciência é o objetivo desse organismo vivo feito de carne e ossos, nervos e músculos; ela é igualmente o objetivo do vasto sistema de mar e terra, de ar e de céu. Essa criação infinita formada pelo sol e pela lua, pelas estrelas, nuvens e estações, não foi instituída com o simples propósito de nutrir e vestir o corpo; ela foi feita primeira e essencialmente para nutrir e fazer desabrochar a alma, para ser a escola da inteligência, a nutriz do pensamento e da imaginação, o campo de expressão de poderes ativos, uma revelação do Criador”.

                Eis os fundamentos da idolatria: “Por ignorância vermos a matéria como divina em si mesma, em vez de percebermos a divindade imanente na criação; darmos à matéria o primeiro lugar que pertence ao divino; tornarmo-nos servos da matéria, em vez de dela nos servirmos para promovermos o nosso próprio crescimento espiritual”. Sob essa ótica das essencialidades, percebemos que podemos cometer o pecado da idolatria com ou sem ídolo, e, por outro lado, termos em nossas casas e templos ídolos, mas ainda assim não cometermos idolatria, pois esta se concretiza sempre que a matéria passa a ser nossa prioridade, nossa divindade e assim converte-se em uma prisão para o nosso espírito.
                Por esse prisma, idolatra, com ou sem ídolo, aquele que sobrepõe o ego-humano ao eu-divino; idolatra aquele que, por seguir alguém abandona o Caminho; idolatra aquele que ama ao dinheiro e os bens materiais ao ponto de, por isso, viver empobrecido espiritualmente; idolatra aquele que é súdito dos governos deste mundo e, para tanto, abandonou o senhorio do Cristo Cósmico; idolatra aquele que confunde D’us com a igreja e assim serve à igreja, a instituição e os interesses dos impérios religiosos, em vez de D’us; idólatra até mesmo aquele que cultua o conceito de D’us que foi construído pelo homem, o deus dos credos, o deus da teologia, um deus criado à nossa imagem e semelhança, em vez de servir o Eterno, Incriado, Infinito, Absoluto, Inominável, que não pode ser servido por mãos humanas, a menos que o façamos na pessoa do nosso semelhante.

                Esses ídolos escapam aos nossos olhos, pois não estão dependurado nas paredes das casas e templos, nos pingentes dos colares, nem no pára-brisas traseiros dos carros. Esses são ídolos do coração que só quem olha para o interior do seu próprio templo pode enxergá-los, bani-los e em seu lugar erigir um altar ao único D’us – O D’US DESCONHECIDO.

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