segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Deus está morto


[…] Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! ” – Nietzsche, Gaia Ciência, §125

     Nietzsche era ateu convicto. Logo, seria completamente ilógico entender a sua declaração - Deus está morto -, como literal, uma vez que, ao fazê-lo estaríamos dizendo que Nietzsche acreditava que Deus um dia existiu, mas que agora estava morto. Por meio dessa declaração o filósofo está explicitando  o que está implícito no comportamento do homem moderno, o ateísmo religioso.

     O ateísmo religioso não é o ateísmo sincero daqueles que não conseguem crer, mesmo depois de se esforçarem muito, porque o divino não se enquadrou na sua lógica; nem o ateísmo sôfrego daqueles cuja fé foi completamente esmagada pela crueza da vida; e muito menos o ateísmo anti-religioso que é, na maioria das vezes, fruto de uma desilusão com a própria religião, uma mágoa. O ateísmo religioso é o ateísmo dos crentes: daqueles que confessam a fé, mas que em suas práticas a negam veementemente ao instalarem uma dicotomia que separa a inseparável relação existente entre fé e vida. Assim, resumem a fé a uma coisa-credo, fundamentada na tradição morta que insistem em manter, embora nem saibam porque a mantém uma vez que já nem se consegue perceber qual seja a sua contribuição para a vida e, em alguns casos, está em clara oposição a própria vida.

     O ateísmo dos crentes é aquele que degenera a fé em um credo cujo teor é a verdade absoluta, assim como absoluto é o monopólio da religião sobre essa verdade que só pode ser entendida e instrumentalizada por sacerdotes; criando-se assim a condição sine qua non seria possível manter a estrutura de poder político-religioso que está estabelecida nas principais religiões do mundo, principalmente no cristianismo - o monopólio da verdade por parte da religião e a existência de um intermediário humano entre Deus e mim, sem o qual o acesso a Deus não me é plenamente possível.

     O produto desse ateísmo-religioso chamado pelos crentes de fé é uma tradição morta, um rito oco, um discurso que se desmente pela prática, um moralismo sem ética, uma existência sem significado, portanto sem autorrealização. - DEUS ESTÁ MORTO, NÓS O MATAMOS EM NÓS - quando assassinamos a fé inata com o punhal da teologia, quando a encerramos no sarcófago do dogmatismo, quando a sepultamos na cripta do credo e da religião.

     O homem carrega em si, de forma latente, a fé. Demonstramos isso quando confiamos em nós mesmos, quando confiamos nas pessoas, quando confiamos nas circunstâncias - é a fé em semente. Sementes nem sempre conseguem germinar por causa das condições. Contudo, quando as condições necessárias estão presentes, germinam, e o seu fruto é uma nova percepção da vida. E isso muda tudo.

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