Eu Creio na Ciência
Na Idade Média, o eixo
em torno do qual gravitava a sociedade européia era o pensamento religioso,
monopólio da igreja, que o impunha como “verdade absoluta” e exigia aceitação
irrestrita, embora muitas vezes esse se demonstrasse contraditório e até mesmo
ilógico. Roger Bacon (1212-1292) foi o primeiro a defender a experimentação como fonte de conhecimento;
enquanto Francis Bacon
(1561-1626) fixou a base do que Descartes transformaria, mais tarde, no método científico.
Suas ideias foram fortemente influenciadas por Nicolau Copérnico (1473-1543) e
Galileu Galilei (1564-1642). Foi, no entanto, com a obra “Discurso do Método” de René Descartes (1596-1650) que foram lançados de fato os
fundamentos do pensamento científico. Após Descartes, enfim, definir o método
científico, o pensador Auguste Comte (1798-1857) cuidou em promover o
conhecimento científico à posição de forma de conhecimento mais importante ou
mesmo de única forma de conhecimento válida. Essa, inclusive, tem sido a
posição adotada pela maioria das pessoas em nossos dias. Mas, será que o
conhecimento científico tem de fato a palavra final sobre o universo, suas leis
e fenômenos? Será que não transformamos o conhecimento científico na nossa nova
“verdade absoluta” assim como fez a sociedade européia na Idade Média com
relação ao conhecimento religioso? Por que lidamos com o conhecimento de forma
excludente e dualista - ou isto ou aquilo - ?.
Antes de nos
debruçarmos sobre as questões propostas, esclarecemos desde já que não nos
opomos ao pensamento religioso, embora não atribuamos a ele a posição de
inerrante ou infalível, o que pode se constatar pelo simples fato de existirem inúmeras
correntes teológicas com opiniões bem diferentes sobre a mesma matéria e, cada
uma delas arrogando para si o título de verdade. Consideramos o conhecimento religioso
a tentativa humana de entender a divindade e outros assuntos a ela associados,
que nos oportuniza refletir sobre o transcendente. Também não estamos em
oposição ao conhecimento científico, pelo contrário reconhecemos que este veio
preencher uma lacuna deixada pela teologia por séculos devido a esta não se
ocupar do estudo da natureza em si mesma; e prover à humanidade informações que
inegavelmente contribuíram para o seu progresso. Contudo, também não
consideramos o conhecimento científico infalível, inerrante, nem a ele
atribuímos o título de verdade absoluta.
Da comparação entre a
sociedade moderna e medieval, logo se percebe que o pêndulo oscilou do
conhecimento religioso para o científico. Há uma clara indisposição em acreditar
na religião, ao passo em que há uma forte inclinação a se acreditar na ciência,
inclinação esta que, às vezes, assume a mesma incapacidade de questionar tão
fortemente criticada em relação à religião. E, ao que tudo indica, a nossa
tentativa de fugir de uma forma de conhecimento divinizado apenas nos levou a
divinizar outra forma de conhecimento, o científico, que para alguns se
converteu em um novo credo. Assim como na Idade Média expressões como “a igreja
diz”, “o Papa diz”, “a Bíblia diz”, eram suficientes para chancelar o
conhecimento religioso dando-lhe o status
de verdade absoluta, hoje, expressões como “está cientificamente comprovado” se
tornaram os novos selos da verdade. Mas será que o conhecimento científico é
infalível e inerrante?
Analisando os
postulados da ciência, verificaremos que o conhecimento científico, como
conhecimento humano, está em construção e é fruto do acúmulo de informações por
parte da humanidade até um determinado momento na história, logo, parcial,
incompleto e em alguns casos flagrantemente contraditórios e equivocados. A
título de exemplo podemos citar o estudo a respeito do átomo: O filósofo Leucipo
e seu discípulo Demócrito acreditavam que todas as formas de matéria eram
constituídas por partículas indivisíveis que foram denominadas átomos (indivisível).
O cientista John Dalton, em 1803, conseguiu demonstrar a existência do átomo,
contudo, continuou concordando com Leucipo e Demócrito de que os átomos eram as
menores partículas existentes, portanto, indivisíveis. Em 1897, outro
cientista, Thomson, descobriu nos átomos os elétrons. De acordo com esse
cientista o átomo era uma esfera de carga elétrica positiva incrustada com
elétrons, com carga negativa. Rutherford-Bohr, também cientista, em 1908,
percebeu que os átomos não eram maciços como se pensava, mas dotados de grande
espaço vazio. Dois anos depois Neils Bohr aperfeiçoou a teoria de
Rutherford-Bohr, dando-nos a atual concepção de átomo. O exemplo citado é um
dentre tantos em que o conhecimento científico se mostrou incompleto e
equivocado. Ora, se as ditas comprovações científicas, como vimos, estão
sujeitas a erro, o que dizer das “teorias científicas”? Por certo as teorias
científicas apresentam certa medida de lógica e alguns fatos parecem com elas
corroborar, mas por não haverem sido submetidas aos métodos científicos, a
própria ciência as chama de “teorias”. Conforme já dissemos nossa intenção não
é desmerecer o conhecimento científico, apenas colocá-lo no seu devido lugar, uma
forma de conhecimento parcial e em estado permanente de aprimoramento que deve
estar sujeita a nossa análise e crítica, tanto quanto o conhecimento religioso.
A religião tem seu
foco no transcendente e, embora de forma secundária se refira ao mundo
material, o faz apenas para usá-lo como suporte para conduzir o pensamento
humano ao divino. A ciência, por sua vez, se foca no mundo físico
considerando-o em si mesmo. Uma vez que o transcendente por natureza está para
além do mundo físico, está fora dos domínios da ciência. Dessa forma, uma
pessoa inclinada à ciência, coerente com critérios elegidos pela própria ciência
para produção do conhecimento científico, jamais terá a presunção de colocar o
transcendente sob as lentes de um microscópio ou se ocupar de provar
cientificamente que Deus não existe, pois ao fazê-lo, demonstrará está sendo
incoerente com a própria ciência que supostamente conhece e valoriza. Incorre em
igual ignorância em relação à religião aquele que tenta impor suas crenças como
verdadeiras, crenças essas que por natureza não podem ser provadas e mais, que
uma vez provadas destruiria a essência da própria religião, a fé (a fé é o
firme fundamento das coisas que se esperam e a certeza de fatos que se não vêem).
Certos indivíduos são
inclinados a crer na ciência, enquanto que outros são inclinados a crer na
religião. Uso a palavra “crer” devido à incompletude e mutabilidade de ambas as
formas de conhecimento exigirem deles certa medida de fé: Fé no big-bang
(possível, mas improvável [que não pode ser provado]); fé no Deus que criou o
universo (possível, mas improvável [que não pode ser provado]); fé na ideia de
que o homem evoluiu de primatas (possível, mas improvável [que não pode ser
provado]); fé na ideia do homem haver sido criado por Deus (possível, mas
improvável [que não pode ser provado]). Se não pode ser provado o que esses
indivíduos exercem é fé: Fé na ciência, fé na religião; movidos por uma
predisposição inata.
Ciência e religião
cometeram muitos erros ao longo da história, erros que custaram caro à
humanidade como as guerras santas em nome de Deus e a segunda guerra mundial
com a detonação da bomba atômica lançada em Hiroshima. Mas a despeito dos erros
cometidos e de seguirem caminhos diferentes há algo que as une a verdadeira
ciência e a verdadeira religião: o objetivo de contribuir para o aprimoramento
do ser humano e consequentemente para a construção de um mundo melhor, cada
qual a seu modo. E, embora o conhecimento seja importante, ainda mais é o bem
que somos capazes de produzir com esse conhecimento. Portanto,
instrumentalizemos tudo que está ao nosso alcance para nos tornarmos pessoas
melhores, ajudarmos a humanidade a ser melhor e, assim, construirmos um mundo
melhor.
Daniel Peres
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